Tuesday, January 23, 2007

mais Disney terra

Joana abraçou Carlos vagarosamente nessa noite. A música da cidade-fantasia do lado de fora do quarto de hotel trazia para a realidade o pó mate que ela reconhecia das histórias de cinema. Chegou Carlos para o pé de si, com o corpo de lado, apertando lentamente o espaço entre as dobras da camisa-de-dormir e as costas dele.
Aquietou-se com o calor de Carlos e finalmente o cansaço do dia sossegou-a como um beijo.

A Eurodisney dissolvia-se na sua cabeça. Era agora uma amálgama de duendes voadores e bonecas de roupa colorida. O chão abre-se num buraco por onde se desce a pique, sempre para baixo, sem ideia de fim. Viagens no tempo. Sonhou que perdia Carlos. Só a dor da perda, como quando se passam muitos anos e já não se fala sobre isso e só fica o buraco.

Acordou com a claridade do dia. Estendeu uma perna por cima da outra, e encontrou o lugar morno do homem que cantava na casa-de-banho. Lembrou-se que tinha sonhado qualquer coisa. Qualquer coisa onde entrava Carlos. Mas a inquietação das promessas de um novo dia, ali, com ele, fizeram-na rebolar na cama para o lado contrário e pôr as pernas de fora obrigando-se a escorregar da cama.



Lúcio olhava distraído em direcção a um grupo de miúdos que gritava furiosamente cada vez que a montanha russa do Indiana Jones cortava uma curva. Nem reparou no Telmo que chegava com os bolsos das calças deformados pelas arestas dos sabonetes e caixas de fósforos com o símbolo do hotel. Um creme de barbear em miniatura veio a rebolar e fez-lhe ricochete nos ténis. Lúcio apanhou o frasco e olhou para Telmo que se ia a sentar naquele instante. “Olha lá, tu ainda nem fazes a barba!”

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