Friday, February 16, 2007

um conto da contributor "AMNESIA"

CABRA
1.
Um bairro de prédios alinhados, como se fossem sanduíches numa vitrine. O sistema de refrigeração está ligado.
O meu é de ovo, mas cheira a cabra. É do reino animal, na mesma.
A minha vizinha tem uma cabra em casa. A minha vizinha que trabalha numa horta, que fica entre dois braços compridos. Uma ilha, entre duas linhas na cidade. Dois carris. Uma cabra. A minha vizinha.
Eu tenho um cheiro que se vê. Sou um preto com orelhas de branco, orelhas de Rato Mickey, um preto inventado por um americano de pele lisa.
No início, era estranho. Passava os dedos pela pele só para a ver ficar vermelha, de um vermelho fugidio, que ia e não vinha. Era uma não-cor. Um preto-branco fugidio. Foi por causa dessas orelhas de preto Rato branco que ganhei a alcunha de Mickey. Foi por causa dessa alcunha que criei uma colecção de cromos de preto rato branco Mickey. Tinha vários cromos, muitos cromos que saíam em pastilhas, pastilhas que davam pontos, pontos que davam cromos. Apanhava-os do chão ou davam-mos no supermercado. Tinha muitos, às dezenas, que guardava dentro dos bolsos, mesmo os repetidos.
O Rato Mickey em todas as posições, só e acompanhado, sempre preto, sempre branco. Até aprendi o nome dele, escrito a spray nas paredes.





Ver a continuação deste conto em:
http://docs.google.com/Doc?id=dc9dxtft_2c6bzps

Tuesday, January 23, 2007

mais Disney terra

Joana abraçou Carlos vagarosamente nessa noite. A música da cidade-fantasia do lado de fora do quarto de hotel trazia para a realidade o pó mate que ela reconhecia das histórias de cinema. Chegou Carlos para o pé de si, com o corpo de lado, apertando lentamente o espaço entre as dobras da camisa-de-dormir e as costas dele.
Aquietou-se com o calor de Carlos e finalmente o cansaço do dia sossegou-a como um beijo.

A Eurodisney dissolvia-se na sua cabeça. Era agora uma amálgama de duendes voadores e bonecas de roupa colorida. O chão abre-se num buraco por onde se desce a pique, sempre para baixo, sem ideia de fim. Viagens no tempo. Sonhou que perdia Carlos. Só a dor da perda, como quando se passam muitos anos e já não se fala sobre isso e só fica o buraco.

Acordou com a claridade do dia. Estendeu uma perna por cima da outra, e encontrou o lugar morno do homem que cantava na casa-de-banho. Lembrou-se que tinha sonhado qualquer coisa. Qualquer coisa onde entrava Carlos. Mas a inquietação das promessas de um novo dia, ali, com ele, fizeram-na rebolar na cama para o lado contrário e pôr as pernas de fora obrigando-se a escorregar da cama.



Lúcio olhava distraído em direcção a um grupo de miúdos que gritava furiosamente cada vez que a montanha russa do Indiana Jones cortava uma curva. Nem reparou no Telmo que chegava com os bolsos das calças deformados pelas arestas dos sabonetes e caixas de fósforos com o símbolo do hotel. Um creme de barbear em miniatura veio a rebolar e fez-lhe ricochete nos ténis. Lúcio apanhou o frasco e olhou para Telmo que se ia a sentar naquele instante. “Olha lá, tu ainda nem fazes a barba!”

Wednesday, January 17, 2007

amanhã!!

está quase em cima do hora, mas ainda assim...
Amanhã às 17H "Lisboa ao Correr da Pena" no CEM

Thursday, January 11, 2007

A Disney terra

Há um bairro. Há uma casa. Há um quarto. Há uma cave.
Há uma escada de tábuas por onde Lúcio passa de uma divisão para outra. Posters de gajas mamalhudas preenchem as paredes do andar de baixo, onde a pouca luz vem de um computador encavalitado parede acima. A D. Ivone não se atrevia a pôr os pés naquele amontoado de madeira e pregos a que chamavam escada, nem a pretexto de o limpar, e o “buraco” destilava assim a personalidade dos 14 anos de Lúcio.

Era a D. Ivone quem ia à porta quando o Telmo tocava. Por uma questão de proximidade. Por essa altura estava normalmente a esfregar os bicos do fogão, ou a pôr a loiça na máquina, quando via os cabelos do miúdo passarem rente à janela da cozinha. Na maioria das vezes ele nem precisava de bater.
O Telmo entrava quase sempre calado, a segurar os passos para evitar que se derramassem corredor afora e fizessem assomar à boca da senhora um chorrilho de advertências. Quando chegava à última porta do lado direito punha a mão no puxador de metal e entrava de um salto para o quarto enquanto atirava a mochila para o chão. Lúcio estava sempre lá em baixo. Sentia o outro pelo barulho do peso dos livros por cima da sua cabeça, e automaticamente afastava o quer que se estivesse a amontoar na cadeira ao lado.

Assomaram os dois pelo buraco da escada quando um dia a voz esganiçada da D. Ivone anunciou que nas férias da Páscoa iriam à Eurodisney… Ela, o Pai e o Lúcio, bem se entendia. Então e o Telmo? O Telmo tem os pais dele!... eu não sei quais são os planos dos senhores… Então e se os pais dele deixarem? Tem calma meu menino que isso não é assim… (Telmo voltou a cara envergonhado) primeiro ele tem que falar com os pais…

Telmo pensava como era frequente as pessoas tratarem-no como se ele não estivesse ali. Pensava que isto acontecia por causa do seu feitio… se achava que tinha opção entre ficar calado e falar optava sempre por ficar calado e de tanto insistir percebia que às vezes os adultos deixavam de considerar a hipótese de ele poder efectivamente abrir a boca.

Wednesday, January 10, 2007

Ouvia sempre música clássica e às vezes passava o percurso a fazer estatísticas mentais, problemas improváveis de matemática interior. Quantos carros estariam em cima da estrada, quantas pessoas em cada carro, quantos olhos, quantas bocas, quantos estariam a ouvir a mesma estação de rádio, quantos se estariam a rir, quantos a chorar, quantos vivos, quantos mortos ou a morrer? Pensava nos beijos que dera num ano. E se houvesse uma forma de contar os beijos? Podia haver no cérebro um contador que imprimisse um número a cada beijo. E como contar os beijos? Dividiam-se em categorias? Por pessoa? Por parte do corpo? “Se tu soubesses agora o que me vai na cabeça. Não adivinhas, pois não? Nem eu.”

O auricular é já como uma veia externa que alimenta um órgão vital. Tentava, a todo o custo, perceber que órgão era esse. O que é que o levava a continuar a atender aquelas chamadas e a proferir frases inteiras numa língua que se descolava do seu significado. Ficava o som das palavras. Um som seguro. Talvez fosse essa a razão por que raramente ouvia música no carro. De manhã, preferia as notícias e a publicidade. Frases inteiras. “Sei que estás a olhar para mim, mas prefiro olhar em frente. De qualquer forma, não me podes ouvir.”

Thursday, January 04, 2007

ano novo sessão nova

na próxima quarta dia 10 às 17h no CEM!

Friday, December 22, 2006

NICKS

Caríssimos,
descobri todos os nomes. Contudo, o meu pudor impede-me de os revelar em público. Digo "pudor"... como poderei ser mais claro? Falo de uma obliteração momentânea da comunicação em função da lembrança dos vossos rostos, fundidos nos textos, com uma lareira ao fundo. Na verdade, a lareira não está directamente ligada, apenas se manifesta na minha frente, aqui, nas profundezas da Beira Baixa com zero graus lá fora.
Como diria o coro de Santo Amaro de Oeiras: a todos um bom Natal... e fico a aguardar a minha prendinha. :)