A Disney terra
Há um bairro. Há uma casa. Há um quarto. Há uma cave.
Há uma escada de tábuas por onde Lúcio passa de uma divisão para outra. Posters de gajas mamalhudas preenchem as paredes do andar de baixo, onde a pouca luz vem de um computador encavalitado parede acima. A D. Ivone não se atrevia a pôr os pés naquele amontoado de madeira e pregos a que chamavam escada, nem a pretexto de o limpar, e o “buraco” destilava assim a personalidade dos 14 anos de Lúcio.
Era a D. Ivone quem ia à porta quando o Telmo tocava. Por uma questão de proximidade. Por essa altura estava normalmente a esfregar os bicos do fogão, ou a pôr a loiça na máquina, quando via os cabelos do miúdo passarem rente à janela da cozinha. Na maioria das vezes ele nem precisava de bater.
O Telmo entrava quase sempre calado, a segurar os passos para evitar que se derramassem corredor afora e fizessem assomar à boca da senhora um chorrilho de advertências. Quando chegava à última porta do lado direito punha a mão no puxador de metal e entrava de um salto para o quarto enquanto atirava a mochila para o chão. Lúcio estava sempre lá em baixo. Sentia o outro pelo barulho do peso dos livros por cima da sua cabeça, e automaticamente afastava o quer que se estivesse a amontoar na cadeira ao lado.
Assomaram os dois pelo buraco da escada quando um dia a voz esganiçada da D. Ivone anunciou que nas férias da Páscoa iriam à Eurodisney… Ela, o Pai e o Lúcio, bem se entendia. Então e o Telmo? O Telmo tem os pais dele!... eu não sei quais são os planos dos senhores… Então e se os pais dele deixarem? Tem calma meu menino que isso não é assim… (Telmo voltou a cara envergonhado) primeiro ele tem que falar com os pais…
Telmo pensava como era frequente as pessoas tratarem-no como se ele não estivesse ali. Pensava que isto acontecia por causa do seu feitio… se achava que tinha opção entre ficar calado e falar optava sempre por ficar calado e de tanto insistir percebia que às vezes os adultos deixavam de considerar a hipótese de ele poder efectivamente abrir a boca.
Há uma escada de tábuas por onde Lúcio passa de uma divisão para outra. Posters de gajas mamalhudas preenchem as paredes do andar de baixo, onde a pouca luz vem de um computador encavalitado parede acima. A D. Ivone não se atrevia a pôr os pés naquele amontoado de madeira e pregos a que chamavam escada, nem a pretexto de o limpar, e o “buraco” destilava assim a personalidade dos 14 anos de Lúcio.
Era a D. Ivone quem ia à porta quando o Telmo tocava. Por uma questão de proximidade. Por essa altura estava normalmente a esfregar os bicos do fogão, ou a pôr a loiça na máquina, quando via os cabelos do miúdo passarem rente à janela da cozinha. Na maioria das vezes ele nem precisava de bater.
O Telmo entrava quase sempre calado, a segurar os passos para evitar que se derramassem corredor afora e fizessem assomar à boca da senhora um chorrilho de advertências. Quando chegava à última porta do lado direito punha a mão no puxador de metal e entrava de um salto para o quarto enquanto atirava a mochila para o chão. Lúcio estava sempre lá em baixo. Sentia o outro pelo barulho do peso dos livros por cima da sua cabeça, e automaticamente afastava o quer que se estivesse a amontoar na cadeira ao lado.
Assomaram os dois pelo buraco da escada quando um dia a voz esganiçada da D. Ivone anunciou que nas férias da Páscoa iriam à Eurodisney… Ela, o Pai e o Lúcio, bem se entendia. Então e o Telmo? O Telmo tem os pais dele!... eu não sei quais são os planos dos senhores… Então e se os pais dele deixarem? Tem calma meu menino que isso não é assim… (Telmo voltou a cara envergonhado) primeiro ele tem que falar com os pais…
Telmo pensava como era frequente as pessoas tratarem-no como se ele não estivesse ali. Pensava que isto acontecia por causa do seu feitio… se achava que tinha opção entre ficar calado e falar optava sempre por ficar calado e de tanto insistir percebia que às vezes os adultos deixavam de considerar a hipótese de ele poder efectivamente abrir a boca.

3 Comments:
presumo que a d. ivone e o marido tenham contraído um empréstimo para a viagem à eurodisney e que naturalmente irão ficar em casa de familiares emigrantes. parece que estou a ver o menino da lágrima no corredor e a sevilhana em cima do plasma : )) conta mais!
a sevilhana talvez não... uma bomboneira da vista alegre : )
lolll... lá na terra dos meus pais há uma senhora que esteve muitos anos na argentina e tem sevilhanas em cima do sofá e recortes de jornais amarelos nas paredes... é por aí é...
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